terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Convenhamos
Viver bem é viver 
Em banho-maria
Essa coisa de intensidade
(Dá-lhe saber!)
Só na poesia

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segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Fábulas: # Três pombas gordas no parapeito

Ao abrir a janela, três pombas gordas e de pescoço engomado feito colar elisabetano formavam uma linha no parapeito do prédio vizinho a exemplo de três matronas líricas que esperam o subir da cortina para iniciar a arrulhar falsetes. A primeira delas arriscou a Rainha da Noite e foi efusivamente recebida pelo alvoroço de um punhado de maritacas; a segunda, mais humilde, se fez de voz de coro e emendou a melodia dos escravos hebreus da ópera Nabucco. A terceira pomba, a menos dramática de todas, não cantou... contentou-se apenas em rir baixinho das outras - era uma pomba do tipo pomba-existencialista -, e antes de bater asas para o longe pôde-se ouvir dela uma única e sussurrada frase:

- que coisa curiosa são as pombas...

E foi-se.


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domingo, 14 de dezembro de 2014

Fábulas: # A vez dos cachorros...

E de repente descobriu-se que os cachorros tem alma e, portanto, um lugar por direito à direita de Deus Pai, pelo menos os cachorros de alma-boa, porque para tudo o que tem alma há também aqueles que, dotados de almas nada afeitas ao destino da eternidade celeste, padecem por serem maus, e quem há de duvidar de que existem também cachorros maus? Pelo menos cachorros distantes dos ditames do Senhor Todo Poderoso e, portanto, formadores do alvo preferencial a ser convertido para o bem, porque é também da natureza dos que tem almas-más, incluindo aí os cachorros maus, uma certa propensão natural para o bem - sendo maus unicamente por um desvio de caráter bastante compreensível àqueles que, em convívio com más companhias (incluindo aí os maus cachorros) tornam-se, portanto, maus também - e, portanto, havendo isso a que chamamos de trilha do Divino ofertada à todos os que tem alma (cachorros ou não cachorros, bons ou maus) a título de celebrar a salvação junto aos demais de alma comprovadamente boa, incluindo aí os cachorros de alma boa, o que se deu foi a implementação em caráter de urgência da missa-dos-cachorros, e cujo evangelho canino pode ser ouvido em ganidos, uivos e ladros, especialmente daqueles cachorros mais fervorosos - os cachorros postulantes a um lugar à direita de Deus Pai -, guiados pelo cuidado e benevolência da palavra do cachorro-pastor

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quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Fábulas: # Guilhermino Constâncio, ou, A verdade e nada mais do que a verdade...


Guilhermino Constâncio gabaritava-se de ser o dono dessa fina espécie de escrúpulo em extinção cujo resumo poderia ser bem pintado como o compromisso primordial com a verdade e nada além da verdade. Aliado à ponderação matemática que cuida de somar isso mais aquilo para que desse isto sem pôr nem tirar quiçá pestanejar, Guilhermino Constâncio primava por perseverar entre o último dos dialéticos à serviço da corroboração fiel e imparcial dos fatos. E quando naquela manhã abriu o jornal e leu o seu nome impresso na sessão dos obituários do dia, correu para o espelho e certificou-se de que estava, de fato, vivo, haja vista que seria bastante improvável - a análise minuciosa das circunstâncias concordava com ele - que um defunto pudesse dar-se ao exercício de se dirigir ao espelho para certificar-se de estar morto (que o dirá vivo!), e de que, portanto, aquilo que publicavam não passava da mais pura e enfática mentira sedimentada sob patamares indiscutivelmente caluniosos o que acabara por injetar em Guilhermino Constâncio uma veia ruborizada de ira em sua testa que somente espocava em situações de extrema justificativa e na face daqueles que reuniam por direto jurídico estampar a indignação. Pensou em ligar para o jornal e pedir uma imediata retratação mas como ainda não havia batido aquelas primeiras horas da manhã que fazem tingir de luz os últimos arroubos silenciosos da madrugada, e concluindo com a exata parcimônia do raciocínio lógico que a redação do folhetim haveria de estar às moscas, coube à Guilhermino Constâncio, então, uma difícil decisão interna que culminou num ato de extrema hombridade que devolveria à ele a reputação perdida ainda que por quase insuspeitos instantes: debruçou-se no parapeito da varanda de seu apartamento e num átimo de segundo estufou o peito com aquela resoluta coragem só atribuída a quem usa o nariz para aspirar a justeza e, enfim, pulou para o vazio do nunca mais. No dia seguinte o mesmo jornal publicou em primeira página o passo a passo do suicídio, sem tirar nem pôr, e com a devida assepsia informativa dos acontecimentos pregressos até a culminação do ato fatídico. Algumas páginas adiante e lá estava, numa errata com letras diminutas e quase ilegíveis, as desculpas do redator pelo erro no obituário da edição da véspera. 

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quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Por que será que é preciso morrer para dar atenção àquilo que quando vivo passávamos ao largo?
Será que é preciso deixar de existir para saber que 
De fato
Existíamos
E pouco disso
Sabíamos?

Será que a vida é isso
Um adiamento
Que quando deixa de ser
Virando esquecimento
Dela lembramos com saudoso
E irreversível
Lamento?


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Vou andando
E já quando ando já mudo o jeito de andar
Porque, afinal
Quem anda não sou eu somente
Mas também o chão
Que ao ser por mim andado
Me anda por inteiro
E completamente

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terça-feira, 18 de novembro de 2014

Falo de mim como se fosse outro que não eu
Eu próprio não interesso-me por quem sou
Não nutro identidades
Ou, se as crio
Prazer maior tenho em colocá-las em contradição 
O que sobra é somente uma fronteira sem substância
Isso sei que sou - nada!

Vazio
Flutuo olhando a mim
Que vejo
Não defendo verdades
Não havendo quem creia
Como então crer?

Tomo esse protótipo imperfeito de quem imagino ser
E divirto-me 
Nada
De fato
Sendo


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Se nos deram o bendito verbo
Por que mastigamos ele de um jeito que se mastiga um pedaço de pão? E como se o alfabeto fosse coisa de se digerir?
Entre facilitar as duas equações: a da gramática e a do estômago
A mim chega mais ao gosto matar a fome da carne
Enquanto reservo à dentadura uma inutilidade mais rica do que simplesmente a de se fazer comunicar no regime da farinha de trigo

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segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Atravesso a esquina e já me canso
Mas não do tipo de cansaço que é irmão do tédio
Não! Minha esquina é coisa atribuladíssima e exige de mim arroubos de explorador de cordilheiras
Agora, e quanto ao tédio?
Pois tédio eu tenho de quem precisa atravessar o mundo
Para entender que é somente da esquina de nós
Que não podemos nunca - ainda que queiramos! -,
Sair

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domingo, 16 de novembro de 2014

A verdade é que tenho duas metades juntadas
Uma é de mentira
A outra
Inventada

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O essencial só é visível
E
Aos olhos!

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Meu maior personagem é o mundo
Que sou eu

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Não faço esforço nenhum para nada
Ainda menos para ser esse que sou 
Sou o que sou e sem remorso algum de o ser
Minha identidade é saber que existo
E isso basta
Meus sofrimentos são de ordem diversa ao da substância íntima que tantos imaginam habitar o interior de suas almas
A minha alma padece de vazios incomensuráveis 
Sou ninguém!
E por isso sou tantos sem a nenhum poder-me ater - eis a minha sina!
Sou essa moldura oca jogada ao palco do mundo 
Não escondo-me atrás de personagem algum
Sou eu próprio o único personagem possível
Se sou só isso
Já sou infinitos  

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sábado, 15 de novembro de 2014

Tenho especial apreço à insignificância 
Enxergo impérios em coisa alguma
Um sopro e já é um vendaval!

Com que preguiça não me chegam os grandes temas!
A intensidade cansa-me os ossos
Sou antes um preguiçoso
Demorando pelas beiradas

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Para que alguma coisa aconteça é preciso que nada aconteça
Para que nada aconteça basta que nada continue acontecendo
O que já é um baita 
De um
Acontecimento!

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Ser ator é viver povoado de ninguéns
Quando o ator é
Já vai com pressa
De deixar
De ser

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O cardiologista morreu de ataque do coração
O oncologista cancerou e morreu 
O nefrologista teve um piripaque irreversível nos rins e hoje é memória 
O geriatra de tão velho finou-se de velhice
O especialista em trauma teve um traumatismo e se foi
O neurologista fora vítima de um curto-circuito nos miolos e já não existe mais
E o ator?
Esse foi morrendo e desde sempre
Uma vez de cada vez fingia que morria
E assim foi vivendo
Em soluços breves de existência 
Até que um dia morreu completamente
Mas de doença nenhuma
Senão por esgotamento
Da paciência 

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sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Um dia hei de ser ator por inteiro
Hoje ainda junto pedaços de fingimento colados entre brechas de consciência 
Um dia serei só isso
Uma despedida de mim 
Cimentada num bloco enorme e inteiriço
De mentira


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quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Estufo o peito com coragem e digo a mim próprio:
Serei sempre aquele quem quiser ser
Mas como nunca sei esse que sou hoje
Espero o amanhã
Curioso para saber quem fui
Ontem

E assim vou adiando-me 
Tropeçando nas vésperas
Dos tantos
De mim

Até quando, cansado
Compreenda:
Por ter sido vários
Termino aqui
Sem nenhum  

Ninguém
É quem sou 

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quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Fábulas: Da experiência de onde procede a inteligência humana

Uma junta de pesquisadores acadêmicos da área comportamental fez julgar que a inteligência humana é coisa medida menos a partir da capacidade de raciocínio do que pelo cálculo sistemático de impulsos programados e inferidos por estímulos externos. Desta feita - e para provar a teoria -, reuniu-se numa praça pública um certo número de transeuntes e durante algumas horas um alto falante comunicava à todos de que todos, sem exceção, nasceram idiotas e haveriam de morrer idiotas. Passado algum tempo, um ator travestido de ambulante trouxe uma coleção de desentupidores de pia enfileirados sobre uma bancada de madeira e comunicou à todos de que todos, sem exceção, poderiam livrar-se da idiotice caso adquirissem um daqueles desentupidores de pia e o grudasse bem no meio da testa. Passado algum tempo, todos, sem exceção, estavam dialogando sobre os mais variados temas filosóficos e científicos, articulando verbos nunca antes articulados, enveredando por alamedas sinuosas e eruditas que poucos, com alguma exceção, haviam enveredado, e nunca antes, sem exceção alguma, com um desentupidor de pia grudado no meio da testa.


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Fábulas: # Do código de ética dos abutres

Um abutre grandalhão pousou no ombro direito de um sujeito jovem e viril dizendo-lhe que acompanharia toda sua vida até que virasse carniça e pudesse dele se servir. O tempo passou e um novo abutre grandalhão fez do ombro do tal sujeito, dessa vez o esquerdo, igualmente poleiro de espera. Decorridos tantos outros anos, e já velho e decrépito, um terceiro abutre grandalhão assentou ninho na cabeça do referido sujeito, contente pela refeição iminente. Mas quando finalmente a morte veio, e como nunca antes fizera qualquer esforço para espantar os abutres grandalhões, os abutres, então, num gesto de consideração e respeito póstumo, pouparam-lhe a carniça, deixando aos vermes subterrâneos - que nunca foram sentimentais com carniça alguma - o trabalho que antes haviam prometido realizar.


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Fábulas: # O Fotógrafo indignado

Era uma vez um fotógrafo especializado em fotografar cenas desastrosas, escorregou numa casca de banana e foi fotografado esborrachado ao chão por outro companheiro de trabalho. Indignado, processou a imprensa sensacionalista.

Obs: os detalhes correm em segredo de justiça. 


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Entre ser e parecer
Encontro-me eu
Que vivi parecendo
Quem fui

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terça-feira, 11 de novembro de 2014

Fábulas: # Nada mais do que a verdade...

Um sujeito metido a desconfiado foi chafurdar nos anais da história e depois de meticulosa investigação veio a saber que tudo o que até então havia sido divulgado como verdade era a mais pura e cristalina mentira, que a muralha da China não existia coisa nenhuma, que a lua era um satélite projetado com luzes especiais provindas daqui mesmo, da terra, que o deserto do Saara não ficava exatamente no Saara e que, pasmem, Jesus Cristo era tão real quanto um dos anões da Branca de Neve. Decidido, pois, a recontar os fatos, e dessa vez imbuído do desejo de retratar somente a verdade e nada mais do que a verdade, ele, então, assim começou: 

- Era uma vez...


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segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Fábulas: # Vida e morte de um determinado Papai Noel


Um certo Papai Noel de Shopping Center - espécime que nessa época do ano ocorre nos principais Shopping Centers da cidade e é extremamente requisitada -, sentado em sua poltrona de Papai Noel e depois de haver recebido em sua perna direita de Papai Noel uma quantidade próxima a duzentas crianças (entre choronas, birrentas e ressabiadas), e outras tantas crianças, talvez trezentas ou mais (entre animadas, barulhentas e remelentas), e dessa vez na sua outra perna, a perna esquerda, e também perna de Papai Noel, enfim, morreu (fadiga foi cogitada como a provável {mas ainda não comprovada} causa mórtis). Mas, no intervalo entre perceberem que estava morto e, de fato, imaginarem uma alternativa para a remoção do corpo, outras tantas crianças, (entre mimadas, bocudas e banguelas), talvez uma centena delas ou mais, sentaram-se em ambas as pernas do já falecido Papai Noel (que por sorte havia mantido um certo sorriso por trás das barbas) para posar para fotos que os seus pais espocavam de suas máquinas de fotografia digitais; e, foi só quando o referido Papai Noel (hoje já ex Papai Noel) principiou a feder, foi somente aí que as autoridades do Shopping Center resolveram apanhar a agenda de contatos para encontrar um suplente à altura daquele que, mui bravamente, dera a vida ao seu ofício de servir às crianças em seus mais pueris sonhos infantis.


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Fábulas: # O Concerto derradeiro...

O nonagenário maestro romeno Rubin Rabesco anunciou que iria morrer ao final daquele concerto, exatamente no chapar derradeiro dos pratos, mas anunciou somente ao spalla da orquestra, o trintagenário violinista belga Elois Chambertan, advertindo-o de que se algo desse errado, que se por um acaso ele batesse as botas antes do previsto, que ele próprio assumisse o posto de regente e seguisse com a música até o seu final, quando os pratos decretariam o fim do concerto. Pois o concerto mal começou e o que se viu foi o nonagenário maestro romeno Rubin Rabesco ser acometido por uma torção convulcional que o fez despencar do púlpito, morto nem bem o primeiro compasso havia acabado. Pois o spalla da orquestra, o trintagenário violinista belga Elois Chambertan, - que antes do início do concerto havia avisado o seu companheiro de estante, o quarentão e também violinista (armênio) Zachar Schinni, que se algo desse errado e ele precisasse se ausentar da sua função de spalla, que ele ocupasse a sua cadeira de comandante dos músicos e continuasse a música até o seu final, quando os pratos decretariam o fim de tudo -, pois então ele, o spalla Elois Chambertan, rapidamente galgou o púlpito e tratou de assumir a batuta, mas nem bem havia vestido as vezes de maestro e ele próprio convulcionou rolando púlpito abaixo bem ao lado do corpo já frio do nonagenário maestro romeno Rubin Rabesco, morto ele também. O que se viu foi, então, o quarentão e também violinista (armênio) Zachar Schinni pular para o púlpito e assumir a batuta, coisa que não durou muito pois ele também viu-se morto após breves instantes em que havia tomado para si a batuta. E então, assim, num perfeito mecanismo de revezamento coordenado, todos os músicos, cada qual em sua vez, trocavam de lugares de acordo com o decoro da importância melódica de seus instrumentos a título de não deixar a sinfonia morrer, e, eles próprios, cada qual em sua vez, morrendo após tocarem na batuta. Cordas, metais, madeiras foram se extinguindo como repolhos colhidos na horta, e formando no palco uma espécie bastante concreta de cemitério, até que, por fim, sobrou apenas o pratista da orquestra que, na dúvida do que fazer - reger o vazio ou tocar o seu instrumento - deu preferência à música e contou silenciosamente as pausas até que, depois de quase vinte minutos mergulhado no mais absoluto silêncio, ouviu-se, por fim, o chapar vigoroso dos seus metálicos pratos, pondo fim, então, ao concerto da noite.


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sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Quando viajo 
Não sei o que mais gosto
Se da viagem
Ou do livro que comigo levo

Se não viajo
O livro empobrece nas paisagens cegas
E se vou sem ele
Pouco ou nada há para se ler
Naquilo que aos olhos
Dá-se a ver

Quando viajo
Viajo duas vezes
Uma viagem para lembrar-me de mim
E a outra que se despede de mim

Que viajo


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Fábulas: # O cemitério de almas nada perecíveis

Quando Lopard Lionel Landwitch, o pianista, desgrudou lentamente as mãos do piano, e após uma nota de longa pressão nas teclas como epílogo magistral do concerto da noite, então, e só depois disso, abriu finalmente os olhos - cerrados até aquele instante em um inspiradíssimo contrato firmado com o último acorde -, e o que se seguiu foi um silêncio tumular. Ninguém da plateia esboçou reação alguma. A orquestra congelou-se num quadro de magnitute espetacular. O maestro empedrou-se com a batuta apontando para o céu e para nunca mais descer. Pareciam todos engessados como que estátuas cimentadas pelas camadas melódicas de Leopard Lionel Landwitch, o pianista, ele próprio inerte, alvo de sua própria audácia. A situação era tão grave que, imagino, se alguém voltasse aquele cenário dali a duzentos anos, certamente encontraria aquelas mesmíssimas figuras imobilizadas como agora, fósseis futuros para uma escavação arqueológica. É bem verdade que não fosse por aquele espirro (alguém espirrou) e tudo isso teria se consumado, dando origem ao primeiro cemitério de almas intactas, nada afeitas ao apodrecimento da carne. Pois a vida voltou pelo espirro. Um espirro anônimo, mas plenamente audível. E todos dispersaram-se para suas casas. E na solidão de cada um, lembraram-se de que haviam esquecido de aplaudir a performance de Leopard Lionel Landwitch, que haviam retornado para casa sem emitir nenhum som de agradecimento, nenhuma palma sequer, nenhum 'bravo!' que fosse, nada senão um toc-toc dos sapatos indo para bem longe de onde até então haviam estacionado. Na cidade já escura, e aos olhos do bom observador, podia-se enxergar algumas luzes acesas, distribuídas entre tantas outras janelas apagadas, dormentes, e delas, das janelas iluminadas, saíam ruídos abafados, que, se somados, repercutiriam numa estrondosa avalanche de entusiasmo, ainda que tardio.


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quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Fábulas: A timidez de um Alguém promissor

Um proeminente Alguém que viria a ser importantíssimo não fosse sua timidez que o impedia de dizer as verdades que guardava, resolveu, para não desperdiçar o verbo e atrofiá-lo para sempre no mudo escuro da alma, armazenar pequenas pílulas de sabedoria dentro de bolhas de sabão que seriam por ele mesmo assopradas e lançadas ao sabor do vento, e, quando o destino quisesse que fossem estouradas, aquilo que havia dito na ocasião do sopro rebentaria aos ouvidos de quem ouvidos tivesse, desvinculando o autor do verbo, e, o mais importante, preservando a timidez do aspirante à alguém importantíssimo da sensaboria coletiva. Pois a primeira tentativa foi exemplarmente bem sucedida, e quanto a bolha estourou ouviu-se um retumbante e acachapante 'vão todos à merda!'



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Fábulas: # O sujeito paranoico

Era uma vez um sujeito paranoico cujo nome não divulgamos aqui para que ele não encontre chance de decretar que estas linhas não são o que aparentam ser, ou seja, um texto qualquer desses que qualquer um redigiria por puro tédio, falta do que fazer, ou mero pretexto para a digestão do desjejum, senão um relatório forjado e manipulatório de denúncia contra a sua pessoa, inocente pessoa, evidentemente, que, enfim, decidiu abrir os olhos para aquilo que o mundo evidencia em faiscantes manchetes a cada vez em que gira em seu ensimesmado eixo - e por isso mesmo alvo fácil daqueles que desejariam a sua cabeça a prêmio, uma vez que dizer a verdade e nada mais do que a verdade é um golpe de coragem e audácia indesculpável para aqueles, a maioria - maioria que é cega, mas não porque é cega, mas porque [vejam só!] enxerga perfeitamente bem e ainda assim faz-se de cega para não ter que ver) que vivem patinando no limbo escorregadio da mentira -, ou seja, a de que tudo nessa vida não passa da mais deslavada fraude, e cujo intento é o de desmoralizar os justos e festejar a vitória dos corruptos, aqueles com culpa lavrada no cartório e quase nunca desnudados em seus pérfidos crimes aos quais o povo, burro, costuma dobrar-se por pura ingenuidade ou burrice mesmo, o que dá na mesma (burro = burrice). Pois bem, e enfim, era uma vez um sujeito paranoico que, atento para todos os indícios farejantes de que o mundo estava fora dos gonzos {to be, or not to be}, entendeu que aquele exato pingo de chuva que lhe aliviava o fervor da careca - quente por tanta atividade intelectual dos miolos vigilantes -, era, de fato, a pista que faltava para abrir as comportas inundantes das provas comprobatórias de que aqueles que lá estavam no poder eram não só assassinos deslavados, chifrudos mascarados, bufões maquiavélicos, como, também, necessários representantes daquilo que há de mais nojento em qualquer filme do James Bond, qual seja, a crença pela massa desinformada de que os vilões não são do mau, mas, charmosos, e, até, necessários para o andamento da narrativa novelesca, a qual - como sabemos - cabia a ele, o sujeito paranoico, desvelar em todos os seus fio emaranhados até que estivessem, um por um, desemaranhados.

- Era uma vez, e de uma vez por todas - até que enfim -, um sujeito paranoico que, para alimentar sua verde de paranoias, abriu uma conta no Facebook e passou a compartilhar todas as notícias dos principais jornais, que, como bem sabemos, de paranoicos não tem nada, quiçá interesse em disseminar a paranoia nos que ainda não são paranoicos, ou, tampouco, naqueles que de paranoia já estão com a barriga cheia.

Prazer!


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quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Fábulas: # Os canoístas e os rinocerontes de chifre cinza


Sabe-se por fontes seguras que após a inauguração do serviço de travessia de rinocerontes de chifre cinza em canoas, cumprindo o trajeto de uma margem a outra do rio, houve uma ocasião - que por razões misteriosas nunca se chegou a conhecer o real motivo -, os rinocerontes de chifre cinza decidiram em comum acordo entrar em greve e não mais empreender deslocamentos fluviais, fazendo com que os canoístas, condutores das canoas, sentindo a orfandade de seus colegas de embarcação, entrassem em greve também, e, desde então - e depois de uma assembléia onde os rinocerontes decidiram em comum acordo retornar à prática dos deslocamentos fluviais em canoas -, sabe-se que não há qualquer chance de se avistar uma canoa onde haja somente um canoísta sem o seu companheiro rinoceronte de chifre cinza embarcado também, ou, então, que haja qualquer rinoceronte de chifre cinza empreendendo solitariamente sua travessia numa canoa sem a ajuda de seu fiel escudeiro, o canoísta. 

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Fábulas: # A razão de haver construído uma pista de patinação sobre o gelo em pleno deserto, e outra não menos razão para não haver razão alguma

Perguntado sobre a necessidade de haver construído uma pista de patinação sobre o gelo em pleno deserto escaldante, o empreendedor de tal loucura retrucou perguntando se alguém haveria por acaso respondido a outra dúvida, essa mais essencial, a saber qual a necessidade de haver nascido se antes tantos outros já o fizeram, insistindo sem sucesso nesse tão louco negócio de existir, e sabendo que outros tantos virão na mesmíssima toada da bancarrota dos anteriores, sem razão, propósito ou explicação, e, ainda pior, tendo consciência de tudo isso, dos becos sem saída, e, ainda assim, sem a menor intenção de fechar as suas lojas de absurdidades as quais apelidam de vida... Por que?


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Fábulas: # Do humor insensível das intempéries

À crise de desabastecimento seguiu-se outra, de abundância, e entre excesso e falta, já não sabendo o que era pior, se afogar-se no muito disso ou expirar ao vento na falta do tanto que já não havia, foi decretado, enfim, as diretrizes que faziam legitimar as saudades da miséria, em épocas de vacas gordas, e o desejo saudoso de ofertas generosas, no período da estiagem completa, equilibrando, assim, as emoções, que, no final das contas, era o que se fazia crer que importava, ainda que a natureza operasse por um capricho misterioso aos corações alheios.

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Fábulas: # A Agência de Conceitos...

Caro interlocutor desconhecido cujos olhos agora acompanham estas palavras de outrem não menos desconhecido ao mesmo tempo em que rói vossas unhas justamente porque a existência não te conferiu profundidade outra fora o ato de olhar para onde quiseres olhar e unhas para que possas roer, anuncio pois, e para a salvação de ambos – eu que o desconheço e tu que me desconheces -, e em primeira mão, que encontrei aquilo que há tanto tempo andava procurando: um jeito de substanciar esse meu eu já tão oco e sem substância quanto o oco vazio de um poço oco, sem água, já no limite da aridez que um poço, justamente porque oco e seco, possa vir a suportar. Entrei, pois, para essa Agência de finalidades sublimes cujos fins ainda não me foram apresentados, e cujo princípio fundamental e pioneiro é mais do que claro e está, grifo meu, em conferir conceitos a tudo o que possa ser conceituado, fazendo daquele que conceitua, eu portanto, um agente fervilhante de criatividades ultra exponencial, revertendo em jorros de vida aquilo que antes, como já o disse, padecia como sertão de vida enrugada, ou quase sem vida, ou totalmente morta, e enrugadíssima de peso existencial, ou seja, o eu que o era e, graças a essa Agência miraculosa de milagres inequívocos, já não o sou mais. Perceba, caro interlocutor, que o mero fato de reportar-me a ti já confere a mim uma felicidade da ordem do incalculável, já havendo aqui, caso não o tenha percebido, uma função conceitual de gravíssima, ou grandíssima, ou ambas as coisas, importância – tu lês este texto enquanto eu o escrevo, ainda que quando o leres eu já o tenha escrito e, provavelmente, esteja eu conceituando em outra praia enquanto tu ainda és alvo dessa luminosidade tardia e exemplar a qual te rendes em justificada reverência como um lagarto que lagarteia ao sol nutrindo-se de seus nutrientes vitaminais. Caro interlocutor, a Agência a qual me refiro, e a qual invoco que tu a conheças antes que te faltem unhas nos dedos, ensina-me que lavar as mãos na pia de cerâmica implica num conceito (outro conceito do que seria lavar as mãos, por exemplo, numa hipotética outra pia, de mármore, por exemplo, e não de cerâmica, por exemplo), e que, por uma contingência do destino, vem a ser um conceito completamente particular – o de lavar as mãos – tão diferente quanto outros tantos, quais sejam, por exemplo, o de coçar o cocuruto quando houver coceira, ou o de bater três vezes uma palma da mão na outra ainda que não saibas para quê, ou porquê, ou tanto faz. Porque veja, caro leitor desconhecido, aí está a eureca da tese, ou a tese da eureca: sendo tu o agente conceituador, há, portanto, para qualquer coisa a preciosa chance de descobrir uma finalidade oculta, ainda que tudo esteja tão escondido que seja difícil dizer: a-há, eureca! Caro interlocutor desconhecido, antes que roa vossas falanges invoco-te a procurar o fim desse arco íris onde o pote de ouro é substituído pela incrível capacidade que tu tens aí, embora não saibas, de chafurdar conceitos em tudo, coisa que o fará desistir dessa consciência mui precisa de que és hoje um miserável entregue a essa tua desgraçada condição de reles leitor daquilo que te vier aos olhos, assim como um medíocre mastigador de matérias mastigáveis. Caro interlocutor desconhecido, passar-te-ei o endereço de tal Agência, e, espero eu, que tu não percas a oportunidade que te entrego de bandeja, qual seja, a de te aguar nas fontes transbordantes da matéria criativa e conceitual.


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quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Quando sou uma orquestra
Minha consciência está nas cordas
Meu coração bate com os metais
As madeiras fazem-me rir em trinados de soluços
E a percussão cala-me por dentro
É o ponto final que comigo só
Não sei se tenho
Só invento

Quando sou uma orquestra
Sou o todo que está lá
Vibrando e sendo
Sou tantos e muitos ao mesmo tempo
Que esqueço de procurar o mistério de mim
Para só ser esse um outro
Maior
E dançando

...


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Fui cofiar o bigode e já não o tinha
Bendita sina
Embunitecer o invólucro 
E despedir-se da alma
Que se coçava
Era também 
Só minha


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Fábulas: # Dos Pinguins e das razões dos pinguins serem pinguins somente no polo sul.


Ataúlfo Galhardo das Amoreiras era dessa espécie de fina flor colhida por entre os jardins da academia, todo ele laureado com bolsas científicas dos órgãos estatais de fomento, transbordante em pétalas de erudição, cheiroso pelo néctar doce da especulação metodológica e polinizador das inventivas mais recentes dos anais universitários. Pois coube a ele a mais nova gélida jornada de ir debandar-se para os recônditos enregelados do polo sul com a missão de perguntar aos pinguins de lá qual a razão, motivo ou circunstância, que os levavam a serem pinguins somente no polo sul e em mais nenhum outro polo terrestre e não terrestre, haja vista que o mundo ganharia (e muito!) caso pudesse desfrutar da presença dos pinguins também em outros terrenos geopolíticos, excetuando, obviamente, o árido deserto do oriente médio, onde até mesmo os calangos-árabes sofriam com a desidratação feroz de um sol assassino que pinguim nenhum (ou não-pinguim) gostaria de conhecer. Munido de seus cadernos de anotações e dos mais variados apetrechos sismológicos ultra-afiados para a produção de gráficos e medição do tamanho de penas, bicos e ovos, o doutorando Ataúlfo Galhardo das Amoreiras quedou-se, então, para o escorregadio polo sul, e como não obtivesse resposta de pinguim nenhum, migrou para o polo oposto, o norte, onde sabia não existir pinguim nenhum, mas, justamente por não haver pinguim nenhum por lá, poderia, quem sabe, descobrir a razão de o polo norte ser tão gelado quanto seu primo oposto e ainda assim nada receptivo aos pinguins, e, uma vez enveredando por tal mergulho teórico-prático, poderia, aí sim, voltar os olhos para o distante e ermo sul (primo oposto do norte) e finalmente descobrir porque cargas d’água os benditos pinguins do sul só escolheram o sul como quem escolhe um time de futebol e não o troca até que a morte venha lhe ceifar o brado retumbante. Se é verdade que Ataúlfo Galhardo das Amoreiras também não descobriu nada no polo norte, também é verdade que não o conseguiu não por falta de dedicação ou entusiasmo, senão pelo fato de ter sido ele comido por um urso polar faminto. Uma placa de bronze como homenagem póstuma fora cravada num iceberg do polo norte (hoje já afundado por consequências do aquecimento global), bem lá onde nenhum pinguim ia, seja por falta de entusiasmo dos pinguins, seja por falta de transporte adequado ou sabe-se lá por qual razão misteriosa. O que se sabe, porém, é que um certo Germano Olegário das Pereiras herdou a bolsa científica do finado Ataúlfo Galhardo das Amoreiras, voltando seus esforços intelectivos para decifrar a razão, motivo ou circunstância, de não haver ursos polares no polo sul.


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terça-feira, 28 de outubro de 2014

Quando falo dos outros
Falo de mim
Quando dedico olhares aos outros
É porque falta-me em mim
Um olhar de mim

Quanto mais penso em mim
Menos de mim
Dou-me conta

É por querer tanto saber quem sou
Que desisto de saber
Quem sou

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domingo, 19 de outubro de 2014

Eu que jamais pensei que amaria
Já não me lembro mais do outro
Que fui
Um
Dia

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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Fábulas: # A Queda e a Ascensão de um Tal Sujeito.


Pois havia esse sujeito, todo ele, pobrezinho, assuspeitado de carregar moléstia gravíssima e contagiosíssima, que recolhido numa operação que envolvia roupas especiais ligadas a tubos e macas e bolhas e tudo isso e mais aquilo, e tudo isso (mais aquilo) para que a provável pecha maldita e invisível não se fizesse de besta aos chamegos dos vizinhos desadoentados, fora, portanto, recolhido ele, o sujeito, e num hospital onde lá descobriu-se que ele não era pobrezinho nem nada, não sendo alvo senão de uma febrezinha besta dessas que as bestas costumam frebricitar-se, e foi, assim, divulgado que seria posto tão logo possível novamente nas ruas, mas como já antes havia sido divulgado que ele possivelmente era uma ameaça às ruas, não pelas ruas, esquinas, praças e outros tantos logradouros em si, senão por quem desses pátios públicos por mera teimosia habita, ele, o assuspeitado de moléstia contagiosíssima e gravíssima que se provou não existir, passou a ser ameaçado de morte por quem dele viesse a ter uma mínima comprovação de sua parca e nauseabunda existência, ao que ele, mui sábio, recorreu ao hospital novamente pedindo internação imediata e vitalícia, ao que o hospital retrucou (e mui sagazmente) dizendo que hospital era coisa de adoentados, e que ele fosse se virar na doença da vida saudável sem que se fizesse de pobrezinho coitadinho ou o que o valha, findando portanto o assunto, e findando ele também, o assuspeitado que nada tinha, atirado que foi à primeira ponte que pôde atirar-se para o eterno não-mais. Ficou na memória como um sujeito respeitadíssimo, altruísta de tudo, modelo de busto de bronze na praça central e recorrente fonte de caráter ilibado pela junta de políticos e demagogos bem nutridos da cidade.

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segunda-feira, 13 de outubro de 2014

#Cenas de Rua... Eu e o presunto, ou quase presunto. Tanto faz.


Ontem, ao chegar na rua de minha casa, deparei-me com um presunto estendido ao chão. Ou parecia um presunto. Se não o era, estava em estágios muito avançados de se tornar muito em breve um belo de um presunto. Rodeado por sangue e policiais, concedi ao presunto uma indiferença de quem coça a cabeça e se enfastia por ser obrigado a contornar o percurso interrompido e imaginar rotas alternativas até que pudesse eu, espectador do ator principal, o tal do presunto, chegar finalmente em casa. Imagino agora se fosse eu o tal do presunto a olhar para esse que fui ontem. Talvez um exercício impossível, justamente porque presunto nenhum é capaz de ponderações especulativas da ordem do raciocínio imaginativo. Não, definitivamente o presunto é quem se salva. A vida é coisa para os experimentados numa espécie de indiferença assassina. Só somos solidários em público. Em nossa solidão, desejamos distância de tudo o que nos transtorna. Mesmo que o transtorno seja materializado na figura de um inocente e triste presunto... ou quase presunto. Tanto faz.

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sábado, 27 de setembro de 2014

Dei o azar de não ser tão velho para ter vivido o que hoje me faz falta
E azar em dobro por ser jovem o suficiente para envelhecer sabendo disso
Nasci no meio do caminho
Quando o que queria
Era os extremos

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quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Fábulas: O Sujeito da Língua Altruísta

Um sujeito de posses intelectuais que o autorizavam a apanhar um microfone e galgar num carro de som, inclinado ao exercício da modéstia, assim o fez. E lá de cima, raspando o cocuruto no rarefeito das ideias justas, tratou de bradar palavras de ordem contra o sistema de transportes da cidade, fadado que era à encalacração motorizada. E assim ele, o digno motorista do verbo politizado, acelerou as suas profecias especulativas, encalacrando tudo a sua volta, o que cuspisse enxofre e o que não cuspia enxofre também, aqueles de propulsão bípede, expelidores de conteúdos pulmonares. E assim, o sujeito de princípios ético-coletivos, após a ginástica verbal, tratou de voltar para casa, e, ainda que não o tivéssemos visto deitar a cabeça no travesseiro, presumimos, com um mínimo de análises psico-comportamentais, que dormiu feliz, satisfeito por dar livre trânsito ao conteúdo de sua língua, ainda que fosse ela, a língua, um músculo definitivamente altruísta...


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terça-feira, 23 de setembro de 2014

Fábulas: # O estudante e o percurso contrário


Um certo estudante de determinada carreira filológico-antropomórfica, dado que era à consciência crítica, resolveu fazer o percurso acadêmico ao contrário do que era praxe e formou-se primeiro, frequentando de trás para frente os anos subsequentes, e unicamente para ter certeza de que o conteúdo de seu canudo não lhe servia para patavinas nenhuma, coisa que, de fato e como bem havia suspeitado, teve como prova cabal, mas obviamente não de imediato, senão na última aula do último dia, ou melhor, na primeiríssima, depois de haver quatro anos pastado nas disciplinas, juntando a descrença com o ânimo desproposital daqueles que ingressavam, todos calouros ingênuos, ávidos crentes de que o futuro lhes reservava utilidade onde não havia... de jeito nenhum!

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quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Fábulas: # O fim trágico do participante do concurso anual de soluços


Durante o tradicional concurso anual de soluços ele tivera uma ideia genial, e como toda ideia genial vem precedida também de um soluço, a soma de dois deles: o soluço da competição mais o soluço da ideia genial, tivera ele, como resultado, uma síncope fatal e morreu, o que não deixou de ser uma solução genial, ainda que o conteúdo da tal ideia tenha se perdido para o todo sempre, por entre os outros soluços da competição, que cumpria calendário no concurso anual de soluços. 

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terça-feira, 16 de setembro de 2014

Fábulas: O fim precoce de uma barata que não chegara a ser uma barata filósofa

Inadvertidamente e sem chances de remorsos antecipados ou culpas futuras, esmigalhei uma barata na calçada que, por sinal, não teve qualquer chance de responder-me à pergunta do motivo razão ou circunstância maldita de a providência divina ter-lhe cunhado barata nessa vida que não mais a pertencia, coisa que, também não tive eu, chance alguma de lhe treplicar a possível réplica justificando o motivo razão ou circunstância de a providência divina ter-me cunhado a mim, nessa minha vida que ainda prosseguia, como esse que agora acabara de me tornar, qual seja, um renomado esmigalhador de baratas distraídas de calçadas alheias.

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Queria ser outro de mim
Ou melhor
Ter-me em dois
Assim:
Enquanto um dormisse
O outro a história 
Continuasse
Até quem dissesse
Ou houvesse
Fim!

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quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Fábulas: # O Hotel dos Suicidas

O Hotel dos Suicidas resolveu o seu problema de retorno de clientela - os hóspedes que lá se hospedavam nunca mais voltavam a hospedar-se - gradeando as janelas dos aposentos. Mas aí os hóspedes trocaram o pulo mortal pelo afogamento na hidromassagem. E quando o Hotel dos Suicidas reformou os banheiros eliminando as banheiras de hidromassagem, os hóspedes encontraram nos sacos plásticos destinados à lavanderia um excelente pretexto para satisfazer aquilo que procuravam. Eliminados também os sacos, houve quem enfiasse a cabeça dentro do frigobar e esperasse ali, em parceria com as latinhas de refrigerante de cola gaseificada, a contagem final das horas. Também o frigobar fora retirado dos aposentos do Hotel dos Suicidas. E quando os aposentos não passavam de um vazio com uma cama no meio - os travesseiros não existiam mais, e também por motivos óbvios -, o Hotel dos Suicidas mergulhou numa espetacular crise financeira, só encontrando saída quando o gerente de marketing, tarimbado nas estratégias de venda, resolveu não contrariar a tendência do mercado, equipando novamente os aposentos do Hotel dos Suicidas, mas dessa vez com uma variedade incrível de apetrechos de tortura. Hoje, quem escolhe hospedar-se no Hotel dos Suicidas tem a possibilidade de decidir entre a masmorra do último andar, o porão dos desesperados no subsolo, o calabouço com fosso de jacarés do Pantanal, ou, ainda, optar pelo quarto comum, que guarda nas gavetas da cabeceira da cama um repertório de pílulas mortais acondicionadas em potinhos grafados com uma caveira atravessada por dois ossos. Se o retorno de hóspedes continua sendo um problema impossível de ser sanado, o Hotel dos Suicidas, ao menos, entendeu a sua especial particularidade, vendendo aos hóspedes a ideia de que hospedar-se em seus aposentos pode ser uma experiência irrepetível, e, por isso mesmo, impossível de ser esquecida, ainda que não haja quem a registre (coisa que o gerente de marketing está tentando resolver nesse exato instante)

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terça-feira, 9 de setembro de 2014

Como ver o que vejo?
Serei eu um intruso que desejo ver para além daquilo
Que me é dado a conhecer?

E ver somente?
Não seria pouco conferir aos olhos
O que minha alma, vendo
Sente?

Como ver por inteiro
Sem que de mim faça alguém visível
Mas ausente?

Sim, desejo ver
Sem que me vejam!
E assinando com minhas linhas o desejo de alguém que sou
Sumir no que digo
Sendo nada
Ou pouco mais do que isso:

Ninguém


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domingo, 7 de setembro de 2014

Entre o que é transcendente 
E imanente
Onde 
Fica
A
Mente?

O vazio não será só isso
Coisa que aparece
Justamente
Quando quem 
De um lado e do outro
Produza 
Um espaço
Latente?

É aqui que está o que não está!
E estando o que não existe
Já existe
Seja por esforço mútuo
Ou mera distração
De quem para existir
Não faz
Força 
Ou qualquer
Menção 

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Fábulas: # O desfile da independência


No dia da independência desfilaram todos: soldados reformados, soldados ex-combatentes, soldados na ativa, aspirantes a soldados... E nas arquibancadas assistiam todos, que para não listá-los como aos soldados, juntamos tudo em uma só classe que os bem resume: ninguém!

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Fábulas: # O ator do branco monumental



A respeito do ator que há 20 anos teve um branco monumental e não pôde proferir seu decisivo 'ai de mim' numa tragédia grega qualquer, e que ainda lá está, de pés fincados sobre o palco e diante de uma plateia de moscas que não suportou esperá-lo, a espera ele da luz que o faça lembrar do que o autor referendou por escrito ao personagem que escolhera interpretar, enfim, depois de tanto tempo de ausências, a ele digo que foi justo nesse vácuo de inspiração onde sua performance ganhara o mais alto grau de refinamento dramático, havendo, inclusive, ocasião propícia para a visita de críticos cujos olhares bem poderiam consagrar-lhe uma honrosa e merecida indicação ao prêmio de melhor ator dessa longa, e deveras exaustiva, jornada.


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sábado, 6 de setembro de 2014

Fábulas: # Os ratos melodramáticos e a dupla de ratos dançarinos

Havia uma pequena aldeia de ratos melodramáticos que costumava se reunir na plateia vazia de um antigo teatro onde podia, cada um e uns aos outros, recorrer ao ombro do rato-vizinho para acalentar o chôro, ou, então, dar-se o ombro para que outro rato mais necessitado viesse à ele chorar. Choravam aos borbotões os ratos melodramáticos, uma espécie de mimimi agudíssimo entremeado por soluços sincopados: ziziziziz-HIC! zizizizizi-HIC! zizizizizi-HIC!, coisa que produzia um zumbido coletivo bastante característico e capaz de atingir até aos tímpanos surdos dos asnos orelhudos, ainda que estes estivessem a quilômetros de distância. Pois um dia chegou à aldeia uma dupla de ratos dançarinos para curta temporada no palco do teatro dos ratos melodramáticos, e como os ratos visitantes não sabiam chorar, faziam dos pés ágeis a sua única ideia de comunicação com os outros. Impressionados com a performance dos intrusos, e ainda mais com a secura árida dos olhos deles, os ratos melodramáticos, extasiados com a ligeireza do bailado da dupla, engoliram o choro que lhes era caro, vidrados naquilo que viam. Mas contiveram as lágrimas só até o fim do espetáculo, quando voltaram a chorar e em proporções eflúvias, embora dessa vez não fosse por razões íntimas, senão por saudades antecipadas daqueles que, ainda que por um breve instante, os fizera parar de chorar.

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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Fábulas: # Os mortos, os vivos... e as flores.

Como recebiam flores e não podiam regá-las, os mortos decidiram, numa assembleia extraordinária que reunia os defuntos todos, dos frescos aos já curados, que não mais as receberiam, delegando aos vivos a tarefa de aguá-las, mas como os vivos contra-atacaram alegando que não cabia aos mortos, dos queridos aos desconhecidos, impor condições às decisões dos vivos, ainda que sobre flores, combinou-se, então, que tudo permaneceria como estava, as flores sendo entregues como antes, e murchando nas tumbas, como sempre. E ainda se pratica o mesmo hábito, não sofrendo ninguém, nem os vivos porque dos sofrimentos todos esse da piedade por flores murchas desaparece feito piada, nem os mortos, que já sofredores em vida aposentaram-se de sofrer depois de haverem tanto sofrido, ou melhor, sofrendo apenas as flores, que se não sofrem para que as vejamos sofrer, ao menos torcem para chover, e isso podemos perfeitamente ver, os mortos e os vivos, basta querer

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sábado, 30 de agosto de 2014

Fábulas: # O cego e a Sala do Silêncio


Um cego esgueirou-se inadvertidamente para dentro da Sala do Silêncio, e como o silêncio já lhe era companheiro de todas as horas – as pupilas aposentadas calavam o zumbido rotineiro daqueles que as tinham em plena forma -, o cego enlouqueceu, somando o vazio da vista com o outro dos ouvidos mudos, forçado pela boca calada dos videntes que na Sala do Silêncio formavam numerosa plateia, e tratou de romper a regra fundamental ao tatear com sua vareta uma possível rota de saída. TEC-TEC-TEC-TEC. Foi censurado, alvo de piadas e chacotas preconceituosas, xingado em sussurros escabrosos até. Conseguiu encontrar a porta e sair. A Sala do Silêncio, então, voltou ao normal, com aquela sensação de que fora feita somente para o usufruto dos menos privilegiados, aqueles que reuniam todos os sentidos sem falhas. Chega de considerações. Silêncio agora.




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quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Sou tão limitado no que faço
A consciência de minhas fronteiras atam meus pés em terrenos tão restritos
Minha pessoa é feita de poucas possibilidades
Uma esquina dobrada e já me esgoto
As mangas da camisa que trajo são curtas e nada afeitas a truques 
Parece que por falta de talento em ludibriar-me, naufrago em uma transparência onde engesso-me e sair não mais posso
Não entendo os aventureiros que hoje estão aqui e amanhã já arrumam-se em jornadas arriscadas
Paira sobre mim um medo e covardia fundamentais
Mas será que não tomo gosto por quem sou justamente por conta disso?
Será que não consigo plenamente enxergar-me exatamente porque enxergo tudo o que sei que não posso ser?
Minha cela é minha liberdade
Preso aos meus grilhões desejo preso continuar sendo 

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domingo, 24 de agosto de 2014

Fábulas # O remorso divino

Havendo Deus criado o mundo em seis dias, e notando que o sétimo era justamente o domingo, trocou o descanso pelo remorso e matou-se. Nessa altura Nietzsche já existia, e coube a ele espalhar a notícia de que Deus estava morto. Mas, entre o fato e o anúncio, já era segunda-feira, portanto, tarde demais. A tragédia que se segue é bastante conhecida de todos nós.


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Se tenho lembranças
Obrigado sou
A lembrá-las 
Se não as tenho
Sofro em dobro 
Em esforço
Por inventá-las

Quisera não fosse alvo do tempo
Seja no vazio ou no lamento
Entristeço
Sempre 

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É difícil viver, não?
Que nada!
Mas difícil ainda é ver quem vive
E pouco se vê
Vivendo

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terça-feira, 19 de agosto de 2014

Houve um tempo em que eu acumulava desejos
Hoje eu desperdiço os vazios que não pude - ainda que desejando
Em mim preencher

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Fábulas: # O sujeito incrédulo... e o leão do circo.

Um sujeito incrédulo ao ouvir a notícia de que o leão havia fugido do circo, duvidou, como de costume, e foi até o circo para provar que aquilo não passava de um boato grosseiro, e que o tal do leão muito provavelmente não havia fugido do circo coisíssima nenhuma. Chegando ao circo, de fato, o sujeito incrédulo viu o leão dentro da sua jaula esparramado feito um tapete gigante de pelos e ruminou contente para si próprio: ‘A-há! O leão não fugiu do circo!’. Mas estava também muito triste o leão, com um olhar piedoso de quem adoraria fugir do circo. E como o sujeito incrédulo podia ser tudo nessa vida menos um sujeito incrédulo insensível, apiedou-se de imediato do bicho trancafiado e abriu o gancho de metal da jaula. E, como o leão podia ser tudo nessa vida incluindo um leão faminto, engoliu o sujeito incrédulo em uma só abocanhada. Depois voltou para a jaula para uma siesta, matutando consigo se o melhor a fazer seria fugir de fato do circo, ou, quem sabe, esperar o próximo que lhe quisesse salvar da sua miséria felina...



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segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Fábulas: # O caderno de variedades inventadas


Era uma vez um jornalista de reputação ilibada que tinha como curioso hábito esconder-se atrás de pseudônimos e mandar cartas elogiosas à redação sobre suas próprias matérias publicadas no caderno de variedades inventadas. Um dia inventou que o leão fugiu do circo e foi a sua desgraça. Dona Cândida, ávida consumidora do caderno de variedades inventadas, ligou para a redação em protesto veemente, dizendo que era impossível o leão ter fugido do circo uma vez que não havia circo nenhum na cidade e muito menos um leão a se perimir que fugisse. Mas é um caderno de variedades inventadas, atentou em defesa o chefe da redação do jornal. Pois que inventem sobre algo que existe! Duas invencionices combinadas anulam-se mutuamente fazendo-nos ver que a mais pura verdade é que não sabemos inventar nada! Esbravejava dona Cândida do outro lado da linha. Mediante a tamanha insistência, não houve outra coisa a fazer senão acionar o jornalista responsável pela matéria e adverti-lo. No dia seguinte, uma tal de Dona Cândida aparecia descrita na sessão dos obituários. E, por curioso que seja, o jornalista de reputação ilibada não apareceu para trabalhar. Nem no dia seguinte. Tampouco na semana seguinte ele apareceu. Soube-se que morreu. Ataque de fúria repentina ao ligar para sabe-se lá quem. E, mais curioso ainda, totalmente trajado de mulher, com o fio do telefone a lhe esgoelar a goela.


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Fábulas: # O elevador indiscreto


Havia esse tal de elevador que não levava a lugar nenhum, ou, pelo menos, não a um lugar conhecido, já que, se entravam vivos e andando aqueles que usufruíam do tal elevador, quando as portas abriam-se, já estavam todos (Requiescat in Pace) estatelados ao chão e mortinhos da silva. Mais tarde descobriu-se que dentro do fatídico elevador existia uma dessas pequenas televisões de plasma pregada logo acima dos numerais dos andares, equipamento dedicado a transmitir as principais manchetes do dia, incluindo aí os altos e baixos da bolsa de valores e tendências da economia, ainda que nada disso interessasse aos que pisavam no tal elevador da morte. Sim, porque em dada altura da viagem, mais precisamente entre os andares 17 e 18, a tal televisão de plasma interrompia seu itinerário de efemérides cotidianas para projetar em sua película moderna a descrição de algumas das intimidades mais escabrosas e grotescas dos seus ocupantes, em alguns casos até mesmo recorrendo a fotos vexatórias para comprovar o que as palavras denunciavam. O assombro geral dava espaço a ojeriza, o que evoluía até a indignação, que baldeava no riso descriminatório do achaque alheio, que por sua vez encaminhava o comboio de emoções até o entreposto da denúncia, e que, por fim, na ideia de defender a honra até então inviolada longe daquela gaiola de alumínio movediça, chegava a mais brutal e convulsiva violência sangrenta. O curioso é que mesmo sabendo desse terrível estado de coisas o tal elevador nunca deixara de funcionar, havendo sempre um contingente interminável de passageiros sedentos por desnudar-se aos outros naquela diminuta lata de sardinha humana, e também, de ter a oportunidade de babar veneno nas idiossincrasias levianas do vizinho de sovaco. E, como todos sempre morriam, não se sabia quem estava com a razão.


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domingo, 17 de agosto de 2014

Fábulas: # O maestro e os aplausos


Um determinado maestro de nariz adunco e já avançado na velhice depois de ser fervorosamente aplaudido durante minutos intermináveis indo e vindo da coxia à boca de cena para dobrar respeitosamente a espinha dolorida pelas primaveras já tão avançadas no outono e mui vizinhas do ocaso invernal enfim depois de tanto repetir aquele trajeto na expectativa de que fosse a última vez e que o camarim o pudesse finalmente acolher no seu merecido descanso depois de haver descabelado-se na quinta de Tchaikovsky e já na iminência do arrefecer dos aplausos como um escoar final de água pelo ralo eis que nova enxurrada varria em eco a sala de concertos exigindo dele o seu retorno e lá ia o maestro de nariz adunco e já avançado na velhice até a boca de cena dobrar respeitosamente a espinha dolorida em sinal de agradecimento enfim cansado pela nonagésima vez de receber os louros barulhentos dos espectadores enfastiou-se daquele mar de espalmadas estrepitosas e mandou uma sonora banana para todos os que sumiam em uníssonos bravos e vivas e assim pôde finalmente acabar com aquela epopéia aclamatória e regozijar-se no silêncio de seu camarim solitário...


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quinta-feira, 14 de agosto de 2014

A pior das personagens - porque somos personagens sempre!
É aquela criada para defender a si próprio
Uma que chega sorrateira, sempre prestimosa, agradável aos outros e, sobretudo, simpática ao mundo

A pior das personagens é sempre uma máscara sobre a máscara
Tentativa frustrada de se dizer:
Veja quem sou!

A pior das personagens é o próprio ator
Que fingindo que diz a verdade
Mente
Mas mente sem saber

Luto para não ser ninguém
E ainda que falhe sempre
Resisto 
É essa triste consciência de saber que sou alguém
Que guarda forças para que quando eu minta
Possa de fato mentir
Bem

A pior das desgraças é forjar uma
Identidade

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quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O que sinto só sinto para mim
Minhas palavras não palpitam sentimento algum
São somente palavras
Como um corpo que já nasce com a alma escondida
E com os contornos à mostra

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Fábulas: # O ator trágico que queria ser verdadeiro...

Era uma vez um ator trágico que queria ser verdadeiro - seu 'Ai de Mim', impôs ele a ele próprio, deveria sair do fundo nevrálgico da sua mais íntima alma...

Subiu ao palco

E, sem querer, inaugurou a comédia.

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A razão de tudo isso é que bicho algum, com a exceção dos gatos (cínicos desde o primeiro miau) poderiam ser atores

A tarefa de finjir é um providencial bálsamo
Reservado a somente quem nada é


Transparente 


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Se a mim foi reservada a tarefa de mentir sobre tábuas
E se nessa preciosa labuta cheguei ao precioso saldo de que mentira maior se escreve nas esquinas da vida
Digo que preservo meu direito de ser absolutamente sincero em cima do palco
Fora dele sou a mais completa fraude, inventando sempre que digo a verdade

Portanto
Não confiem nunca em mim!
A não ser quando esteja
Mentindo


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segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Fábulas: # A saída para quem almeja à originalidade...

Era uma vez um sujeito que agregava duas desgraças num só lombo: além de ser um sujeito capaz de entender-se como tal, o que já é uma desgraça para toda a vida, era ele também escritor, incumbindo a si próprio a heroica tarefa de ser um sujeito original, e isso já bem depois de que todas as histórias originais, com personagens originais, haviam sido escritas, editadas e divulgadas por toda a espécie conhecida de escritores e sujeitos originais. E como lhe restava um pouco de consciência sobre sua miséria, um dia se deu conta da tamanha encruzilhada em que o destino lhe metera e gritou as seguintes palavras em ordem: MERDA! MERDA! MERDA! Foi a sua salvação. Virou poeta marginal, letrista de funk e ator junkie. E com a fama advinda do seu talento, virou um sujeito conhecido.


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quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Fábulas: # o conluio de especialistas...

Começava-se a reunião dizendo que o mundo estava em vias de implodir, seguindo com o depoimento em que se manifestava a certeza absoluta de que os que lá estavam eram os mais preparados para evitar a tal implosão, prosseguindo, então, por uma detalhada retrospectiva das responsabilidades de cada um dos presentes na matéria referente ao pavio que deveria ser apagado antes que a iminente implosão implodisse, e botasse, portanto, tudo a perder, instante esse em que, uma vez terminada a roda preliminar de manifestações espontâneas, era chamado ao púlpito, e em silenciosos vivas de respeito auto-imposto, os elementos de mais longa data, e já tarimbados em reuniões emergenciais como essa, que sempre relutavam em falar num primeiro momento - todo sábio rejeita satisfazer o desejo alheio de ser ouvido - mas que acabavam por falar novamente - todo sábio ainda guarda consigo um tico preservado de vaidade latente - e sobre aquilo que todos já sabiam, mas que seria interessante, e porque não dizer urgente, saber mais uma vez, discurso que ia pegando fogo aos poucos e cujo teor acabava irremediavelmente por virar até bastante inflamado e recheado de arroubos de ilibada militância ética e moral, versando, portanto e em resumo, sobre a impossibilidade de se evitar qualquer implosão, porque é da natureza do mundo, ora ou outra, implodir-se, cabendo a nós, excelentíssimos membros da reunião, compactuar ou não com esse terrível fenômeno inflamável, deixando a cargo da consciência dos que lá estavam, sem dúvida nenhuma os mais preparados para tal circunstância especulativa, riscar o fósforo com as próprias mãos, ou, então, arcar com as consequências de ser ele o alvo imediato da onda de impacto que, ora ou outra, iria repercutir sobre o mundo que, como dissemos desde o mais primevo princípio, está que está para ir aos ares, e muito em breve... ao que parece, enfim...


Aplausos 


Fim



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quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Fábulas: # O cão que não dava para ator...

Ensinaram a um gato a ser ator, e, como o cinismo lhe era congênito, grandes dificuldades não teve ele em ceder aos bigodes a tarefa de fingir estados de humores que não eram os seus. Então chegou o dia em que um cão ousou arriscar a mesma carreira, mas, como era sincero demais - coisa denunciada pelo rabo, sempre propenso a revelar o estado de espírito da alma -, naufragou de imediato, deixando, ainda que a contra gosto, ao rival felino o futuro das artes dramáticas. 


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Fábulas: # Quando os comediantes se suicidam...


O primeiro comediante tratou de ser tradicional e apareceu com o pescoço esganado por uma gravata dentro do armário de roupas, exatamente entre o suéter de lã e a jaqueta de couro. O segundo comediante, dali a alguns dias, tivera o ímpeto bravio dos machões que não medem conversas por meias palavras, estourando os miolos com um tiro seco e sem perdão. O terceiro comediante, aquele que se amarrou à linha do trem, pertencia ao rol dos dramáticos e tentou deixar um bilhete explicando suas medidas desesperadas, mas sem sucesso - a letra tremelicante do condenado na iminência de selar o destino sem volta impediu que houvesse um epílogo formalmente compreendido -, o que o obrigou a entrar para a eternidade assim mesmo: atropelado como tantos outros, sem a alcunha de um monólogo emblemático, na fila dos anônimos, e tampouco merecedor de direitos autorais. Somente quando o quarto comediante desiludido fora flagrado submerso na hidromassagem, já azul e de olhos esbugalhados, foi somente aí, pressionado pela sociedade, que o governo resolveu tomar alguma providência. Uma comissão de especialistas articulou-se para entender o fenômeno até então desconhecido, chegando à conclusão, depois de análise minuciosa do inquérito, que a cada vez que uma piada sem graça era detectada em um lado da cidade, do outro, e imediatamente, um comediante tirava a própria vida. Estava armada a encruzilhada jurídica: sancionar uma lei abolindo o direito dos incapazes de tentar fazer o povo rir, e por isso assassinos indiretos dos capacitados para tal, ou, mantendo as coisas no patamar em que estão, preservar a liberdade de expressão, arcando com a estupidificação geral, já incluindo aí as futuras e novas baixas – não tantas, porque já se faz notar a escassez de indivíduos assaz inteligentes...?


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Fábulas: # A assembléia dos pavões...


Na pequena sociedade rural coube aos pavões letrados a tarefa de representar os demais bichos nas questões referentes ao bem estar social. Uma assembléia de pavões era armada uma vez ao mês para que cada pavão pudesse, cada um em seu tempo, diagnosticar e prever soluções para os entraves éticos e morais da granja. Porém, como é do feitio de todo pavão, em especial dos pavões letrados, mal começavam a falar e já esbanjavam beleza própria ao ostentar suas penas ao vizinho. E como cada vizinho também era um pavão ostentador, e também letrado, ao invés de nutrir inveja pelo espetáculo do concorrente, ao contrário, respondia a ele com outra abertura fulminante, agora do seu próprio leque colorido. Ao cabo de todas as apresentações preliminares, enfim, a assembléia podia ter início, e assim tocar, finalmente, no cerne das angústias referentes ao andamento da granja. Porém, afogados que estavam em seus chumaços enfeitados e nunca recolhidos, já que é do feitio dos pavões, em especial dos pavões letrados, nunca arrefecer em seus princípios paradigmáticos, ninguém mais se via, cada um refém das plumas alheias, que ao roçarem narinas imprevistas, produziam uma sinfonia esquisita de espirros e interjeições várias. E assim, impossibilitados de resolver qualquer coisa, os pavões letrados, como é do feitio dos pavões, em especial dos pavões letrados, remarcavam um novo encontro, para dessa vez, e finalmente, tentar resolver alguma coisa concernente aos entraves éticos e morais da granja... Longe um do outro, como é do feitio dos pavões, em especial dos pavões letrados, cada qual recolhia sua cauda espetaculosa, voltando a ser, individualmente e solitários, pouco mais que uma ave semelhante às galinhas D'Angola...

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Fábulas: # A mula que foi vender os miolos pensantes na feira municipal...


Uma anta que atravessou o caminho de uma mula apressada perguntou a ela onde ia com tanta urgência, obtendo como resposta da mula que ela ia para a feira municipal botar à venda os próprios miolos pensantes, mas como, perguntou a anta curiosa, tendo-os tão reduzidos como eu tenho os meus cá comigo, o melhor não seria preservá-los para que assim, confinados, possam preservar um tanto de valor? Nisso a mula retrucou de imediato dizendo que de jeito nenhum, antes ter patas ativas e músculos torneados do que assemelhar-se à coruja, que do alto do galho vê tudo, sabe de tudo, compreende tudo, mas pouco ou quase nada age, valendo pouco ou quase nada o movimento invisível que guarda para si. Mas a coruja não é uma filósofa respeitadíssima, replicou a anta, é sim, rebateu a mula; e também não é a coruja uma reconhecida professora de pupilos que almejam um lugar nas academias, mais uma vez inquiriu a anta, sem dúvida que sim, disse a mula; e também a coruja não escreve lindíssimos artigos nos jornais da cidade versando sobre os mais variados temas da atualidade, insistiu a anta, e como não, arrematou a mula; e por acaso todas essas habilidades não tornam a inteligência da coruja visível aos olhos dos outros, errado, não é a coruja, tampouco a inteligência dela, mas a imagem forjada de si própria que se arvora aos olhos dos outros, já reparou que não é senão para isso que ela vive, para fazer plateias ao redor das asas? Disse isso a mula e já se foi galopando, sumindo das vistas da anta...

Há uma sabedoria especial em suar os músculos, essa sim uma sabedoria nada abstrata e deveras palpável, e se opta por não produzir ecos, é justamente porque as plateias não lhe são necessárias. 


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terça-feira, 5 de agosto de 2014

Fábulas: # a capciosa arte de se fazer banquinhos de madeira...


Houve um tempo em que fazer banquinhos de madeira consistia em cortar a madeira na medida exata para que, havendo partes distintas de madeira, e uma vez encaixáveis e encaixadas, pudessem, enfim, e com algum esforço, dar forma a um banquinho de madeira. Mas chegou a teoria, e com ela toda uma digressão filosófica sobre o sentido e razão última embutidos no árduo ofício de se fazer banquinhos de madeira. E com a teoria vieram também os teóricos, todos eles compelidos, e preparadíssimos para tal, em convencer-nos de que fazer um banquinho de madeira exigia tais e quais requisitos mínimos, e, uma vez os tendo, fazia-se necessário, antes de fazer o banquinho de madeira, compreender as implicações éticas e morais incrustadas nessa tomada de decisão nada ingênua, e portanto longe de imparcial, que é optar por arregaçar as mãos, apanhar as madeiras, cortá-las em partes encaixáveis, e, encaixando-as, dar forma, finalmente, a essa coisa a que habituamos nomear como banquinho de madeira. Mas para cobrir esse tempo ocioso entre decidir fazer o banquinho de madeira e, de fato, fazê-lo, foi-se necessário o surgimento dos professores, essa espécie abastada que no passado polvilhou o mundo com uma infinidade de banquinhos de madeira, mas que, agora, cônscia da sua cristã tarefa de engolir o peixe para ensinar aos outros o como pescar, empresta-se ao abençoado martírio de esfregar o focinho do pupilo na madeira até que este se convença da necessidade de cortá-la em partes encaixáveis, e, uma vez encaixadas, e com um retumbante esforço, possa, finalmente, fazer um bendito dum banquinho de madeira, ainda que capenga e manco em uma das pernas na primeira tentativa, e feioso e sem charme nas demais. Assim, então, e graças a Deus, as escolas superiores de fazedores de banquinho de madeira foram abertas, todas elas concorridíssimas, formando um precioso elo de interessados em galgar a difícil porém gratificante arte que é a de fazer banquinhos de madeira, e que hoje anda tão relegada, infelizmente, ao segundo plano das urgências terrenas e metafísicas.


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segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Fábulas: # O tal do senhor Américo que enxergava tudo ao pé da letra...


Era uma vez um tal de senhor Américo que levava tudo ao pé da letra. E tanto passou os seus dias a cheirar o calcanhar das sílabas, lixando as unhas sobressalentes das palavras, assoprando a poeira para que as frases pudessem passar e com isso poder ele, o tal do senhor Américo, olhar em minúcia acurada os parágrafos de baixo para cima exatamente como quem ajoelha-se e pede ao firmamento alguma luz que só cega e nunca abençoa, que, em virtude do nariz sempre prostrado, uma corcunda veio a se instalar bem no cume espinhoso do seu lombo há muito acostumado no dobrar-se, mas, como nunca o via, o cume espinhoso do lombo curvado, e, por conseguinte, a corcunda alojada no lombo curvado e espinhoso, a ela, a corcunda, não rendia homenagens ou reverências. Continuou a viver assim o tal do senhor Américo, mas só até o dia em que a corcunda exigiu a devida atenção que toda corcunda, hora ou outra, há de merecer ter, mas aí já era tarde demais para que o tal do senhor Américo pudesse analisa-la com seus olhinhos apertados e perspicazes. Morreu dando uma cambalhota, fruto do peso acumulado de suas certezas.



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Fábulas: # As feras palitam os dentes...



Não há aqueles ratos alvos e de olhos esbugalhados e vermelhos que são criados especialmente para servirem de iscas vivas às cobras famintas dos institutos de soro antiofídico? Pois então, como recriminar a prática instaurada naquele zoológico do interior que passou a servir crianças serelepes e barulhentas para saciarem os apetites das feras enjauladas? Os pais levavam os próprios rebentos para o parque, instigavam os pimpolhos a pularem a cerca que separava a raça evoluída dos quadrupedes de mandíbulas afiadas, e, uma vez lá dentro, a meninada dava início a um cerimonial de aporrinhação gradual que compreendia desde a execução de danças provocativas, passando a um repertório de línguas a mostra e gestos insinuantes de que os bichos selvagens não eram de nada lá-lá-lá-lá-lá, até chegar ao clímax hediondo de bruxulear com uma pena de ganso atada aos dedos a parte inferior do focinho úmido dos animas cativos. Ainda que nada famintos, talvez por haverem degustado uma turma de quinta série já naquela manhã, e também diferentes de nós que a tudo contemporizamos sob pretexto de manter a dignidade de uma civilização erigida por séculos de labuta intelectual a título de reprimir a selvageria, as feras, feridas na sem paciência, avançavam no agente perturbador para num só golpe acabar com o barato, diferente das cobras, que por uma razão só delas, insistiam em demorar a engolir o rato preso entre as presas peçonhentas. Aos pais que a tudo assistiam, primeiramente esfuziantes e depois afogados em lágrimas, era oferecido um apoio psicológico através de um pacote de sessões de terapia regulares, além de um pequeno diploma que os agradecia pela preciosa ajuda dada em nome da perpetuação das espécies ameaçadas de extinção, e, por isso mesmo, tratadas com tanto esmero por aqueles que decidiram as preservar atrás de grades especialmente construídas.


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