sábado, 30 de julho de 2016

Sou tantos que sou um só
Que vigia os outros muitos que sou
Mas a esse um que a todos em silêncio rege
Pouco ou nada sei
Quanto mais multiplico-me
Menos afasto de mim
E continuo assim:
Duvidando do único de quem me seria impossível
Deixar de ser

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segunda-feira, 27 de junho de 2016

Há coisas que não fazemos. E não as fazemos para que elas não percam esse hiato de suposição que é imaginar como seria se as fizéssemos. Pular de paraquedas, por exemplo. Nunca pulei de paraquedas. E, provavelmente, nunca pularei de paraquedas. Não que eu não tenha certeza de que pular de paraquedas seja uma experiência incrível de se experimentar. Mas, prefiro manter essa espécie de eterna espera por pular de paraquedas, um sempre-quase pular de paraquedas mas nunca pular de paraquedas. Que decepção seria para mim o pular de paraquedas e perder a imaginação que sempre adia a atitude de pular de paraquedas. Há coisas que adiamos fazer. E adiamos somente por conta disso: para preservá-las dentro do nosso maravilhoso repertório de suposições nunca cumpridas.


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Adoraria ter talento para fumar... Equilibrar aquele bastonete branquinho entre os dedos médio e indicador, tragar a fumaça como quem chupa um milkshake de chocolate delicioso, empinar o queixo para cima e baforejar aquela nuvem alva polvilhada de toxinas mil feito um escapamento de carro. E depois de fazer tudo isso, dizer alguma coisa espirituosa. E depois tragar de novo. E baforejar de novo. E dizer alguma coisa espirituosa! Ah, como eu queria ter talento para fumar. Seria alguém que fuma. E que diz coisas espirituosas no meio da fumaça tóxica. Acho isso um talento e tanto.


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sexta-feira, 17 de junho de 2016

# Cenas dramáticas para uma tarde cinzenta: O Atraso do Ator.


Um ator chegou atrasado ao espetáculo em que figurava como protagonista. Entrou correndo debaixo do refletor aceso que marcava o foco da cena em que ele deveria estar há pelo menos trinta minutos, quando aquele mesmo foco marcou o chão do palco sem que o referido ator lá estivesse. A plateia estava lotada. A despeito do atraso, ninguém havia arredado o pé dali. Controlando a respiração que ainda ofegava, o ator, bastante temoroso, deu início ao seu texto. Mas interrompeu-se lá pelo meio, incapaz de prosseguir. Abandonada a personagem, dirigiu-se olho no olho aos espectadores da plateia: "vocês não vão dizer nada?". E ninguém disse nada. "Nenhuma vaia?". E ninguém vaiou. Indignado, saiu do palco para não mais retornar. A plateia demorou para produzir os primeiros burburinhos. Havia dúvidas se aquilo fazia parte do espetáculo ou não. Demorou ainda mais para o primeiro espectador decidir levantar-se e ir embora. O segundo espectador acaba de se levantar. E o terceiro agora. E o quarto... Aos poucos, a sala vai se esvaziando. Provavelmente estará completamente vazia na ocasião em que o ator já estiver em sua casa, de gorro na cabeça, prestes a desligar a luz de cabeceira para dormir e se recuperar para o espetáculo do dia seguinte. Com sorte, imaginamos nós, ele não cometerá o erro de atrasar-se novamente. A conferir.


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terça-feira, 14 de junho de 2016

Sempre compro jornal e não leio. Jogo tudinho no lixo sem ter folheado sequer o horóscopo. E isso me dá uma calma na alma... Saber que há uma tragédia escrita e não lida é o mesmo que lamber os dedões depois de metê-los sem permissão na cobertura do bolo.


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Dá 9 horas da noite e é batata: minha vizinha de porta tenta matar a filha aqui ao lado. Já desliguei os relógios. Normalmente eu vou tomar banho quando o relógio marca 9 horas da noite. Hoje não mais. Abandonei o relógio. Quando a minha vizinha de porta tenta matar a filha, eu me levanto calmamente do meu sofá de estofado vermelho e preto, bocejo, arranco as roupas, e me vou tomar banho. 

Obs: quando os ponteiros anunciam às 2 da matina, a minha vizinha de porta tenta matar o marido. Que é quando eu fecho calmamente o meu livro de cabeceira, desligo a luz do abajur, rezo um pai nosso, enfio um gorro com um pompom no cocuruto... E me vou dormir.

Obs 2: minha vizinha de porta tem um pintassilgo na gaiola... Faz tempo que não ouço o pintassilgo gorgolejar. 

Obs 3: quando amanhece, a minha vizinha ameaça se suicidar. Que é quando eu abro as janelas do meu quarto, faço a saudação ao sol, recito um mantra que aprendi na ioga, e vou botar a cafeteria de café pra fazer um café.

Obs 4: eu torço fervorosamente para essa família de Deus não cumprir com as suas promessas, porque senão a minha vida ficaria completamente desregrada. E seria muito penoso ter que voltar a recorrer aos relógios.


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quinta-feira, 28 de abril de 2016

Tenho tantos livros quanto faltam-me olhos para lê-los...
Mas não é como a vida?
Acumulam-se anos 
E quem será capaz de tê-los vividos 
Todos?


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Será que o músico sente para tocar
Ou antes toca 
Para depois sentir?

O que vem primeiro:
A nota tocada
Ou a alma
Encantada?

E quanto ao ator?
Será que ele é quem ele diz ser diante da gente
Ou 
Mente?
E finge sentir realmente
A mentira que a nós chega 
Como verdade premente?

O que vem primeiro:
A matéria de mundo - aquilo que a nós é dado 
Ou esse mundo outro - todo invisível
Porque inventado?

Ser e
Não ser.

Ora veja...
Por que
Não? 

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sexta-feira, 15 de abril de 2016

Não sei quem sou
Mas faço um tremendo esforço para parecer quem seria impossível que eu fosse
Sou isso:
Um conjunto mal sucedido de farsas experimentadas 
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Sou dois de mim
Um que é feito para guardar quem sou
Sem janelas para visitas
De silêncios obrigatórios 
Outro que se mistura ao mundo 
E vê de longe o absurdo do minúsculo que sou
Daquele outro que existe só para si
Distante do calor do anonimato
Que só pode haver entre tantos
Mas então sinto saudades de quem eu fui
E volto a ser quem eu era
Ou nunca deixei de ser
Sendo sempre
Gosto dos dois de mim
E só me salvo
Porque perco-me a navegar
Entre ambos

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quinta-feira, 7 de abril de 2016

Se o infinito escapa-me aos olhos
Guardo o pouco que dele sei para que caiba em minhas mãos
E reduzida a escala de tudo
Vejo a mim
Não mais pequeno como outrora
Senão impossível quanto era
Aquilo que de mim exigia silenciosa reverência.
Duplico eu de tamanho quando invento pequenezas 
Sobreponho-me ao mundo ao trazer ele comigo
Em meu bolso.
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Não sou quem sou
Sou o que faço
E como faço tanto quanto exijo-me a fazer
Sou um fazedor de mim mesmo

Sou aquele quem faz
Para ser quem sou

Que de tanto ser
Impossível de saber
Quem é

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